amargo do pó

 que gosto tem o pó nos seios? — eu me questionava enquanto ele dizia que queria me comer me olhando nos olhos (meus olhos são muito verdes) e enquanto eu pensava pra onde eu olharia, porque eu geralmente desvio o olhar quando tô nessa posição. e em outras também. 

e eu me questionava que gosto tinha, porque ele tinha proposto; me perguntou o quanto eu era visual e eu disse que muito, porque sou muito visual mesmo. então ele sacou um saquinho com um pó branco e balançou nos meus olhos e eu sempre tive esse limite interno com estimulantes. 

mas até então, nessas quase 3 décadas, eu nunca tinha visto tão de perto. e olha que não sou careta: passei por duas seitas, já fumei maconha, já comi cogumelo… ando entre travestis, degeneradas, mulheres com pelos corporais e todo tipo de artista neurodivergente. mas ainda não tinha sido alcançada pelo diabo branco. 

e ele me olhava com um olhar ao mesmo tempo sério e arteiro, mais velho que eu, parrudo, bonzinho. e eu o olhava de volta sem saber e disse: "eu nunca fiz isso", e ele acreditou, porque eu tinha um pouco de medo na voz também. delicadamente, ele passou a mão pelos meus seios e ajeitou um montinho branco no meu mamilo. lentamente ele cheirou e depois lambeu enquanto me olhava. me beijou na sequência e eu senti o amargo no palato e a boca formigando. 

a sensação foi mais entorpecente do que perder a virgindade — e olha que não posso dizer que não provei de tudo. eu sentia que queria ele cada vez mais fundo, o suor escorria, estávamos estimulados de tudo e eu queria ser devorada por ele (o que não era difícil, porque fome tinha). se eu fechar os olhos ainda resgato o amargo que me fez torcer a língua (enquanto ele a chupava). 

acendi um baseado, tomei um café. me olhei pelo reflexo no box enquanto eu tomava banho. pensei que só 2% da população mundial pode falar que teve cocaína cheirada no peito. me senti meio punk dos anos 70, confesso. espero que não se repita. 


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