RECEITA PARA REENCONTRAR UM GRANDE AMOR (NUMA VIAGEM ONDE TUDO DEU ERRADO, MAS NO FINAL, DEU CERTO
RECEITA PARA REENCONTRAR UM GRANDE AMOR (NUMA VIAGEM ONDE TUDO DEU ERRADO, MAS NO FINAL, DEU CERTO)
Ingredientes:
1. uma mala grande demais para os dias da viagem de fato
2. um estado ansioso
3. grandes coincidências do destino
4. almoço sem gosto
5. uma tarde, noite e uma manhã
6. um grande amor
Modo de preparo:
Você vai pegar sua mala (grande demais para os dias da viagem de fato), vai entrar num carro de aplicativo correndo; é muito importante que você maneje a ansiedade, mas pode perceber com o tempo que não tem como. Sua íris estará do tamanho de um buraco de agulha. Você vai descer num prédio na Lapa, na Rua Riachuelo (ou seria uma avenida?), subir o elevador ofegante, abrir a mala, escovar os dentes, tomar uma água, mandar centenas de mensagens meio desesperadas, meio esperançosas. E daí, segue para um almoço com o amor-da-sua-vida, que nem mora no mesmo país que você, mas, naquela ocasião, ele estava lá. E eu o senti chegando alguns dias antes, em pensamento, navegando pelos meus sonhos, falando comigo; eu o senti atrás de mim, me puxando para um abraço desajeitado, ansioso, cheio de muitos cheiros. Almoçamos, e, honestamente, nem lembro do gosto da comida. Só lembro dele me fitar com os olhos castanhos e eu sentir meu corpo todo revirar do lado de dentro, como se eu não estivesse viva antes, mas, naquele momento, a vida entrasse em mim de volta. Caminhamos por uma distância que não sei, virando em ruas que eu conheço, mas não me lembro, e eu te reprimi por não ter me dado as mãos quando te vi da última vez e você me deu as mãos e o tempo foi infinito até o próximo passo. No prédio, no elevador, tiramos uma foto que nunca vou te pedir para ver, porque eu fico com medo de ter ficado feia. Em muitos anos, é a nossa primeira foto juntos (vestidos). Entramos no apartamento e você se encantou com a vista e eu pude reparar em você de longe, mas perto. Nuca, braços, pernas. Fui me despindo e te acompanhando com o olhar, quando deitou e me beijou, aquele apartamento se tornou testemunha de um grande eclipse: transamos como quem faz amor e numa angulação única de eventos astrológicos intensos. Você me olhava firme nos olhos como se falasse comigo o tempo todo; eu não, eu preciso falar, e falei que te amava, que te queria, que eu era sua, todas verdades incontestáveis (mas que eventualmente, você contesta). Te amei ontem como todos os outros dias em que te vi, mas mais porque eu não achei que você me amava o suficiente para uma tarde inteira, uma noite e uma manhã. O suficiente para gozar falando meu nome em outras camas. O suficiente para eu nunca te esquecer e me perguntar: e se eu largar tudo e for atrás de você? Você fica comigo pra sempre?
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