não, não e não

não, eu não te controlei, não quis que você fosse outra coisa. não, eu não não-nutri você. eu não fiz pouco caso, não te chamei de patética. não, eu não joguei suas coisas fora e tampouco me lembrei de colocá-las nos correios, simplesmente porque minha vida passou e eu não tenho apreço por brincos comprados em lojas de R$1,99. eu não fui às redes sociais te mandar indiretas e nem fiquei vidrada no seu perfil catando as referências de angela roro e reparando em como você se esforçava em parecer bem. eu não falei de você com seu irmão, nem com ninguém. não respondi seu e-mail, não quis te ver quando você viajou 600km para pintar o cabelo do lado da minha casa. não reagi quando você me disse ter recebido flores um dia depois que terminamos e, definitivamente, não tenho notícias de com quem ou se tem saído. não sou essa criatura vil e nem fui fria. no egoísmo de quem se sente abandonada, você se chafurdou e rolou e sobrou só esse espaço crítico para as memórias que teve de mim. é curioso como eu, que enterrei duas pessoas no meio-tempo da nossa relação, não tive um pingo de compreensão - é claro, quem compreende alguém como eu? ainda mais curioso, um dos meus motivos pro fim é que eu te acho criança. todas suas dores me parecem muchochos juvenis de alguém que não aceita ter suas vontades atendidas à exatidão do que você idealiza. e aí realmente, ser adulto nesse contexto é o equivalente ao lobo mal, o equivalente a alguém que não te amou o suficiente, ou como você diz: "não me senti amada por você". aí que tá, no meio de todas as referências musicais que você acha que fazem de você especial, não existe esse amor lírico, essa reza própria de amantes da década de 70. o que existia era eu, em profundo sofrimento, incapaz de dar doce à criança. e a criança chora, esperneia, me manda mensagens, me acusa, aponta os dedos, fala de coração partido, se ocupa apenas de si e dessa dor que você, assim como o desamor de mim, fantasiou. nunca existiu essa sofreguidão toda. eu não me afastei de você porque, segundo você, você "começou a se parecer mais comigo". até porque isso é impossível. eu sou adulta já. a questão toda é que eu só não te quis mais. não quis não por falta de amor, mas por saber que eu quero viver o todo do amor e do respeito, da liberdade e da fluidez. não me cabem esses espaços onde você me dá ordens indiretas como se fosse uma esposa insatisfeita. reconheço que não fui e nem sou capaz de amar você da forma que você espera porque, daqui uns anos você descobrirá, você é a única pessoa que pode se amar dessa forma. jamais vou te enviar isso, diferentemente de você que me bombardeou com sua escrita lacônica e ausente de referências literárias. mas deixo aqui um registro um tanto indignado da coisa toda. 

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