a casa sem homem

19:40h. nossa reserva já passou do tempo. passei de moto ao lado do restaurante que marcamos e fiquei pensando que em algum espaço-tempo, poderia ter havido nós ali. mas não houve. o vento noturno de outono parecia pequenas faquinhas no peito e eu quis ir sem casaco pra sentir tudo passando, me lembrando que o tempo não está suspenso, mas transparente correndo entre um alvéolo e outro. 

hoje mais cedo, antes de desmarcar nossa reserva, você disse que não sabia se estava me dando o que você queria e nem conseguindo receber o que eu queria nos dar (sic). na minha estrutura dramática e fatalista, eu já ensaiei meus atos finais nas trocas de mensagens, como se fosse uma crônica de morte anunciada e você estivesse se separando de mim. lágrimazinhas mequetrefes me escorriam do olho e mergulhei num silêncio. 

"você quer falar?", Rosa me perguntou. "não, quero escrever", respondi. 

e na minha cabeça eu escrevi tudo e um pouco mais do que consigo escrever agora, as palavras são como bolhas de sabão, se você não as dedilha quando elas surgem, elas flutuam pra longe ou estouram diante de você. "estou escolhendo as palavras", eu te disse. e enquanto eu as escolhia, percebi que é complexa essa dança sem roteiros ou movimentos coreografados - você quer me dar algo que eu nunca te pedi e que talvez eu nem queira responder. 

essa postura de homem da casa não faz sentido pra mim; até porque, na minha casa não tem homem da casa. tem gato, vasilha suja, roupas acumuladas, muitas mulheres, nenhum homem da casa. e eu te vi se debater na minha frente, se contorcendo entre o esforço que você acha que precisa fazer e a pouca necessidade que vejo disso, porque o que quero de você é sutil, pode ser entregue de forma espaçada, desde que sustente a fantasia que eu preciso que exista. 

não tenho palavras para comunicar que gosto que seja distante e próximo, que eu possa derramar lágrimas esquálidas e ao mesmo tempo me deliciar com lembranças que consigo localizar perfeitamente no tempo, porque elas não foram ainda incorporadas no campo do habitual e habitam o fantástico mundo dos acasos programados. 

e que as faquinhas no peito do vento de outono não deixam marcas, ou se deixam, ficam tão sutis quanto as curas no meu peito, que só quem tá olhando bem de pertinho, com a boca nos mamilos, consegue perceber que existem. 

perdemos nossa reserva e um monte de outras coisas que pensamos que teríamos e espero que essas coisas nos achem desocupados, despreocupados e dispostos. e você não vai precisar se esforçar, porque essas coisas chegarão tão perfeitas, que parecerá um sonho. e então saberei que foi rompido o véu da intimidade e já adentramos em outros véus, difusos e meio melancólicos. 

Comentários

Postagens mais visitadas